O SORRISO DO FRENTISTA

Como faço costumeiramente, reforço que a ideia, o ponto de vista central, o significado do texto que segue, jamais teve, têm ou terá intenção de classificar a profissão, ou a forma com que cada um ganha a vida. O cerne da informação que tentarei transmitir aos distintos leitores, é a de que, dinheiro, status, prestígio, não são os motores determinantes para resultar numa vida plena.

Pretendo dividir convosco alguns fenômenos presenciados por mim, coisas que me levam a autoanálise. Coisas que parecem transbordar em certas pessoas, ao mesmo tempo que me fazem falta. Dito isto, creio que para muitos não será um novo autoquestionamento. A pergunta é tão antiga quanto a própria humanidade, entretanto, não me atreverei a proposição de uma resposta, pois em verdade, não acredito possuir uma resposta satisfatória e com possibilidade de ser empiricamente usada, abarcando solução para o enigma. Hoje serei um cronista e deixo a resposta submissa ao escrutínio da leitora(or).

Por vezes sinto que meu humor deveria ser melhor. Mais expandido, desenvolto, leve. Abençoado com a paz do contentamento. Os amigos mais chegados, aqueles que conhecem minha trajetória, sabem que não venho de família abastada ou cunhada por algum sobrenome de estirpe suficiente para andar sobre tapetes vermelhos, fazer com que portas e oportunidades surjam como mero acaso.

Tudo isso para ao núcleo desse roteiro, no qual os atores são apenas 4. Após anos de trabalho constante, mudei-me para um apartamento localizado em área nobre da grande São Paulo. Ora, seria de se esperar que um sujeito nas minhas condições, se percebesse quase pleno. Remuneração adequada, locais de trabalho próximos a minha casa, qual seria a queixa? O que justifica a sensação de constante cansaço, cenho fechado, pensamentos girando em torno de situações/problemas que ainda nem existem, e que no mais das vezes não tornam-se realidade, porém são dotados de força que nos faz sentir, em alma e carne, todo sofrimento, abandono e desespero que determinada situação imaginada poderia trazer, premiado com a nefasta característica, de nos torturar imediatamente, em pleno presente, os tais pensamentos de ruina e fracasso, que assombram um futuro que provavelmente nunca se manifestará concretamente. Nesse contexto, 3 sorrisos impressionam-me sobremaneira, por todas as razões que um sorriso genuíno nos remete; paz, contentamento, esperança, carinho, consideração. São 3 sorrisos iluminados com sinceridade, àquela que só os verdadeiramente, privilegiados com esse dom, podem expressar.

O terceiro sorriso, demérito alguns aos anteriores, é que mais me cativa. Ele é frentista no posto onde costumo abastecer. Nunca fui atendido de forma diferente, mesmo quando uso meu carro mais simples (mas um corísco para os trajetos entre casa e trabalho). Quando me vê, desloca-se até mim, sorrindo durante o curto trajeto, que, contudo, é realizado centenas de vezes num dia de trabalho. Ele me cumprimenta de forma quase esfuziante, como se sentisse genuína alegria ao ver mais um cliente. Parece estar na casa dos 50 anos, não tem vícios, porém os vincos, rugas e sulcos em suas mãos e seu rosto, nos antecipam que o homem nunca teve vida fácil. Valas abertas pelo arado do tempo, certamente iniciadas desde muito jovem, passou por coisas das quais muitos de nós evitamos até falar. Tão perplexas, abusivas e vis que podem permear o trabalho infantil. Estudar como e para quê? Grande parte dos pequenos filhos do Brasil, veem-se obrigados, movidos por  força de fome e penúria, a deixar os estudos ao invés de trabalho, a fim de prover alguma ajuda aos pais e aos irmãos que seguem após ele como verdadeira escala de notas musicais. Do grave ao agudo, com intervalos de aproximadamente 1 ano, a famosa “escadinha” composta por muitas teclas de piano. Material humano que será subutilizado, limitando suas capacidades a única opção para a qual conseguem, ou tem currículo para ganhar a vida pela disposição e coragem que os impelem a passar toda uma vida, a trabalhar com os membros. Braços e pernas a todo vapor, a fim de que aos filhos, não resta apenas a opção que foram instados a aceitar outrora.

Sou atendido com gentileza e humildade, mas sem subserviência, após cumprimentos cordiais de parte a parte, ele logo questiona qual a gasolina que usarei. Questionamento polido, mas meramente retórico, ele sabe que sempre abasteço com a mesma gasolina. Sempre, infalivelmente, oferece opções para inspeção extra; calibragem, óleo, lavar os vidros. Sempre sorrindo e gentil, sobretudo honesto, quem tem carro sabe… existem postos onde se para uma mera abastecida e o frentista mal abre o capô e já começa a fazer seus diagnósticos, incluindo peças a serem trocadas. Conversa fiada em sua maioria. Mas não meu frentista gentleman, é o melhor frentista do posto, ganhando de longe do 2º colocado, conhece os produtos que são comercializados, demonstra tanta disposição para o trabalho que poderia ser confundido com o proprietário. Costumo ser um pouco ranzinza, assumo. Por vezes me pego cansado da própria lamuria. Nunca o vi queixar-se de nada, inverno, verão, chuva ou estiagem. Realiza uma profissão sem prestígio com muito mais dignidade do que muitos profissionais mais “badalados”. Sorrindo sempre, sem queixumes, nunca me pediu gorjeta, mas eu mesmo dou, sempre que tenho, para recompensar e estimular seu grande trabalho. Imagino que tenha muito mais dificuldades financeiras do que eu, trabalha muito bem em sua profissão, porém acredito, que se algum dia sonhou com alguma profissão, arrisco dizer frentista não encabeçava a lista. Contudo faz o que é preciso, certamente não apenas por ele; esposa e filhos, uma mãe idosa?

Em meio a todas essas conjecturas, me arrisco! Atrevo-me a dizer que conheço 2 ajudantes gerais e um frentista, que se sentem melhor do que eu ao despertar e enfrentar seus desafios com dedicação plena e impressionante felicidade enquanto executam seus afazeres, menos complexos, sob ponto de vista cognitivo se comparado a um transplante cardíaco, ou diagnóstico psiquiátrico. Mas faça o seguinte exercício; compare o semblante sisudo/emburrado/apressado e até hostil de seu médico, com o semblante leve, assovios, gargalhadas e gritos de alegria produzidos pelos lixeiros correndo atrás do fétido caminhão.

A média de suicídio entre médicos é maior do que a da população em geral. Não é palpite, trata-se de fato constatado e relatado há anos.

Essa longa história, termina aqui, mas não tem um final, haja visto, que para mim, os sorrisos e a alegria tão autênticos, nascidos no coração, escalando o peito, e desabrochando numa fenomenal manifestação de contentamento, permanecem um extraordinário, fascinante e magnifico mistério para mim.

Por que o frentista está sorrindo? E os lixeiros, os responsáveis por serviços gerais?!! Qual o motivo que os leva a serem mais felizes do que eu?

 

Por: Dr Frederico Félix