Ana Maria Gonçalves acaba de ocupar um lugar que já era seu por direito: uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Escritora, jornalista, tradutora e uma mulher que escreve como quem rasga véus da nossa história, Ana entrou para a ABL na última semana e levou com ela a força de muitas vozes silenciadas, especialmente a de Kehinde, protagonista de seu romance mais conhecido, Um Defeito de Cor.

E que conquista bonita de se ver. Nascida em Ibiá, Minas Gerais, em 1970, Ana começou sua carreira como publicitária e jornalista, mas foi na literatura que encontrou seu grito mais potente. Em 2002, lançou seu primeiro livro, Ao lado e à margem do que sentes por mim, mas foi em 2006 que escreveu a obra que mudaria sua trajetória e a de muitos leitores também.

Um Defeito de Cor não é só um livro. É uma viagem imersiva e profunda por mais de cem anos da história do Brasil, contada por uma mulher negra, africana, que foi arrancada de sua terra ainda criança e sobreviveu à escravidão, às violências, às perdas e às reinvenções. Kehinde, a narradora, é inspirada em personagens reais, inclusive em Luísa Mahin, mãe de Luís Gama, e uma figura histórica de luta e resistência. A narrativa é escrita em forma de carta para o filho, e é impossível não se emocionar com cada linha.

Ana escreveu esse romance como quem escava a memória coletiva do Brasil com as próprias mãos. São mais de 900 páginas, sim, é um calhamaço, mas que passam como um sopro. Um sopro forte, que machuca e cura ao mesmo tempo.

O livro ganhou o Prêmio Casa de las Américas em 2007 e, desde então, se tornou leitura obrigatória em universidades, clubes de leitura e corações atentos. Com ele, Ana nos lembrou que a história não é uma linha reta e que muitas vezes ela precisa ser recontada por outras bocas, por outras perspectivas.

A entrada dela é um símbolo: o Brasil precisa reconhecer que sua cultura, sua literatura e sua identidade foram construídas por muitas mãos e que as mãos negras têm papel fundamental nessa construção. Ana não só escreve histórias, ela escreve reparações.

Seu trabalho ultrapassa fronteiras. Ela já foi escritora residente em instituições nos Estados Unidos e na África, traduz textos, participa de debates sobre raça, literatura e identidade, e continua escrevendo com a mesma intensidade de quem sabe o peso e a urgência da sua voz.

Agora, como imortal da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Gonçalves carrega mais do que um título: carrega a responsabilidade e o prazer de continuar dizendo aquilo que muitos tentaram silenciar. E ela faz isso como ninguém.

Se você ainda não leu Um Defeito de Cor, leia. Leia com tempo, com calma e com o coração aberto. Porque Ana não escreve apenas para entreter, ela escreve para lembrar quem somos, de onde viemos e para onde ainda precisamos ir.