Cadeia, primeira colaboração de Debora Diniz com o Grupo Editorial Record, retorna às livrarias em uma edição revista e ampliada, com prefácio inédito da autora, após 11 anos da sua publicação original. Em tom etnográfico, a obra reúne relatos das vivências de mulheres na Penitenciária Feminina do Distrito Federal, colhidos ao longo de seis meses de escuta quase diária. No último ano, Debora foi finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico e do 1º Prêmio de Incentivo à Pesquisa em Direitos Humanos (Prêmio Pesquisa-DH), promovido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania em parceria com o CNPq.

O ano era 2014. Durante seis meses, Debora Diniz acompanhou a chegada de mulheres à Penitenciária Feminina do Distrito Federal. O Núcleo de Saúde da instituição foi escolhido como seu espaço de escuta. De um banquinho, não fazia perguntas: anotava em um caderno o que as mulheres contavam às médicas, psicólogas e assistentes sociais. Como na cadeia a vida muda devagar, a vida de dez anos atrás ainda é parecida com a de agora.

Os relatos deste livro são instantâneos de vidas comuns, crônicas sobre mulheres esquecidas atrás dos muros de uma prisão. Há humor, ternura, mas também muito sofrimento. E se na cadeia as mulheres precisam se reinventar para sobreviver, neste livro é feito um experimento: a escrita segue o rigor do método científico pela técnica de observação, porém não é um texto acadêmico frio, repleto de citações.

“[…] eu precisava pensar na escrita de um jeito que me aproximasse da oralidade do vivido. A voz predominante teria que ser a das mulheres; nem trabalhadores do presídio, menos ainda autores e conceitos poderiam recortar a autenticidade do vivido. Foi desse emaranhado de desejos que cheguei a este livro: cinquenta relatos no formato de conto etnográfico.”

 

As narrativas apresentam o que há de mais íntimo em cada mulher presa e nos permite construir um retrato da população carcerária feminina no Brasil. Encontramos, então, mulheres muito jovens, negras, pobres, com filhos. Elas conheceram o maquinário punitivo ainda na infância ou na adolescência, em unidades socioeducativas de internação. Caíram no crime pelo mercado das drogas.

Em dia de visita, se deparam com uma fila tímida, se comparada à dos presídios masculinos. A maior parte das mulheres presas já foi visitante de companheiro, pai ou filho no presídio masculino. Elas, porém, têm apenas o abraço de amigas e de mulheres da família.

Além de reunir histórias que nos envolvem, o livro tem o mérito de apresentar dados importantes para a formulação de políticas públicas que promovam dignidade às mulheres encarceradas e ampliem oportunidades para meninas que vivem em contextos sociais vulneráveis. E ainda revela outra forma de escrita acadêmica, mais humana, em que rigor científico, ativismo e cuidado tecem cada linha.

SOBRE A AUTORA

Debora Diniz é antropóloga, professora da Universidade de Brasília (UnB), autora de livros e diretora de documentários sobre aborto, prisão e saúde mental. Seu livro Carta de uma orientadora: sobre pesquisa e escrita acadêmicas foi finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria Educação e Ensino, em 2025; e Zika: do Sertão nordestino à ameaça global recebeu o Prêmio Jabuti de melhor livro na categoria Ciências da Saúde, em 2017 (ambos publicados pela Editora Civilização Brasileira). Em 2018 foi considerada, pela importante revista Foreign Policy, um dos cem pensadores globais de destaque. Recebeu mais de cem prêmios, entre eles o prestigioso Dan David, pelo trabalho acadêmico em igualdade de gênero; o Pierre Verger, por seus documentários; e o 1o Prêmio Mulheres e Ciência, pela sua trajetória. Cadeia: relatos sobre mulheres, lançado originalmente em 2015, deu início à parceria entre a autora e o Grupo Editorial Record.