Embu-Guaçu, município de aproximadamente 68 mil habitantes na Região Metropolitana de São Paulo, recebeu R$ 8,3 milhões em emendas parlamentares federais somente em 2026, distribuídas por nove parlamentares.

Somam-se a isso os investimentos do Governo Federal via Ministério da Saúde, por meio de programas como oPAC e o Agora Tem Especialistas. No primeiro semestre de 2026, o montante total de recursos para a saúde do município, entre emendas, transferências e programas federais, se aproximou de R$ 19 milhões, segundo balanço divulgado pela Câmara Municipal. O orçamento municipal da saúde para o ano é de R$ 176,9 milhões,
o equivalente a 32,99% da despesa total prevista na LOA de 2026, que soma R$ 536 milhões.

O dado que dá a dimensão real do desafio: do total de 68 mil habitantes, 58.719 são usuários exclusivos do SUS, ou seja, 85,21% da população de Embu-Guaçu depende unicamente do sistema público para qualquer atendimento de saúde. Cada real mal aplicado atinge diretamente dezenas de milhares de pessoas.

O dinheiro chegou. A pergunta que fica é: chegou ao paciente?
Porque o caminho entre a indicação política da emenda e o benefício concreto para a população é longo, tortuoso e repleto de armadilhas de gestão. O ciclo começa com a indicação. O deputado ou senador destina o recurso ao município. A prefeitura cadastra a proposta no InvestSUS, sistema do Ministério da Saúde, e precisa demonstrar que o investimento está alinhado ao Plano Municipal de Saúde e à Programação Anual de Saúde
(PAS). Vem então a análise técnica do Ministério, a liberação dos recursos e, finalmente, a execução, etapa em que boa parte dos municípios tropeça por falta de capacidade técnica ou de planejamento prévio.

Os instrumentos de gestão do SUS, Plano de Saúde, PAS e Relatório Anual de Gestão (RAG), existem, mas a questão é se eles de fato orientam as decisões ou se viram meros documentos burocráticos para cumprir exigência legal. Quando a emenda chega sem conexão real com esses instrumentos, o recurso corre o risco de ser aplicado de forma fragmentada, sem impacto duradouro. A transparência ganhou reforço com decisões
recentes do Supremo Tribunal Federal (STF), que exigiram mais publicidade e rastreabilidade na execução das emendas. Isso significa que o cidadão pode, em tese, acompanhar quanto foi destinado, para qual finalidade e em que estágio está a execução.

Mas transparência, sozinha, não resolve. De nada adianta saber o valor se não
for possível medir se a UBS ganhou um equipamento que realmente reduziu filas ou se o recurso trouxe o resultado esperado.

O grande nó da gestão pública brasileira não é apenas conseguir a emenda. É garantir que cada real recebido responda a uma necessidade real do território, esteja previsto nos instrumentos de planejamento e gere um benefício mensurável para quem depende do SUS. Em Embu-Guaçu, onde 85% da população só tem o SUS como porta de entrada, essa responsabilidade é ainda maior. A boa gestão não começa quando o recurso chega,
começa quando a necessidade é identificada, planejada e transformada em prioridade.

Enquanto essa lógica não se consolidar, as emendas continuarão sendo mais um número no orçamento do que uma solução na ponta.

Em Embu-Guaçu o recurso chegou. A execução dele está sendo feita. Agora é ver o benefício chegar para a população.

HUMBERTO TOBÉ
Pós-graduado em Gestão da Saúde Pública, é Analista de Gestão no Ministério da Saúde      atuando na interlocução com prefeitos, vereadores, gestores municipais e representantes    da área da saúde, especialmente dos municípios paulistas.

João Aníbal
Pós-graduado em Auditoria, Perícia e Gestão. Pós-graduando em Planejamento e Orçamento Público.